Arquivo | maio, 2012

“Não tenho raiva dos alemães, só não quero amizade”

30 maio

Relato de uma holandesa sobre os tempos de guerra

Anna Gerrits: “Guerra nunca mais”

“Foi um dia de muita festa. O dia em que pudemos hastear a bandeira e cantar o hino da Holanda novamente foi maravilhoso”. Esta é a lembrança que a holandesa Anna Gerrits Welpshaar tem do dia 5 de maio de 1945, data que marca o fim da ocupação nazista no país depois da Segunda Guerra Mundial.

Sessenta e sete anos depois, o “Bevrijdingsdag” (ou Dia da Libertação) é comemorado em toda a Holanda. No dia anterior, todo 4 de maio sempre às 20 horas, o país se cala durante dois minutos em memória às vítimas da guerra. Bandeiras são colocadas a meio-mastro em sinal de luto e cerimônias são realizadas em diversas partes do país, incluindo antigos campos de concentração em Amersfoort e Westerbork.

Festa em Amsterdã no Dia da Libertação, 1945 (arquivo: Nationaal Archief)

Aos 92 anos, Anna Gerrits atualmente vive na pequena Gramsbergen, cidade com 5 mil habitantes no leste da Holanda. Ela tinha 19 anos e estava em casa quando foi acordada por barulhos de aviões e pelos pais dizendo que a guerra havia começado. “Fomos pegos de surpresa. A gente não imaginava que isso ia acontecer. Há algum tempo sabíamos da crise financeira. Havia muitos desempregados e o Hitler prometia que tudo ficaria melhor. Mas não; ele matou 100 mil judeus só na Holanda”, lembra.

Naquele 10 de maio de 1940, Anna conta que as pontes de todas as cidades foram levantadas para evitar que os alemães entrassem. “A Holanda é cercada por água e achávamos que levantando as pontes evitaríamos a invasão. Também era uma forma de ganhar tempo e pensar o que faríamos. Porém, em três dias as tropas nazistas ocuparam tudo. Roterdã foi bombardeada e a Holanda se rendeu”.

Os NSBs

Filha de fazendeiros, Anna vivia em Schoonebeek, na fronteira com a Alemanha. A proximidade com o inimigo e o medo do que estava por vir fez com que muitos holandeses se aliassem aos nazistas. Os NSBs como eram chamados os integrantes do Nationaal-Socialistische Beweging (em português: Movimento Nacional Socialista) só fizeram aumentar a lista de inimigos. “Não podia-se confiar em ninguém, nem mesmo no seu vizinho. Muitos falavam para os alemães que ali tinha comida, objetos de valor ou judeus escondidos”.

Retaliação a um NSB preso em Utrecht (arquivo: Verre Verwanten Radio)

Mesmo não sendo judia e não tendo vivido os maiores horrores da guerra, Anna lembra-se de quando viu pela primeira vez soldados das tropas alemãs invadirem sua casa e saquearem alguns objetos da família. “Eles iam em busca de comida, máquinas, bicicletas e qualquer outro objeto de valor. Eles levaram nossa máquina de fazer pão e alguns cavalos. Depois desse dia, passamos a esconder tudo que podíamos, principalmente comida. Matamos todos os porcos e colocamos para secar para conservar a comida por mais tempo. Fazíamos tudo em silêncio para ninguém notar”, conta.

Quando a guerra acabou, os NSBs foram retalhados. Suas cabeças foram raspadas como forma de identificá-los na rua. Segundo Anna, eles não eram bem-vindos e até hoje filhos de NSBs são apontados nas ruas. “Não tenho mais raiva dos alemães, mas não quero amizade”.

Perseguição aos judeus

Mesmo sabendo que aqueles eram tempos difíceis, Anna e grande parte dos holandeses daquela região não tinham informações precisas do que estava acontecendo. “Não tínhamos rádio, nem televisão. Eu sabia quem era o Hitler porque tinha cartaz dele espalhado por todo canto, mas os rumores eram de que ele estava à caça de judeus para trabalhar. Não tínhamos a menor idéia de que havia campos de concentração. Só soubemos de tudo depois que a guerra acabou”.

O ódio de Hitler aos judeus também não era muito claro para as pessoas naquela época. “Os judeus eram ricos e tinham muitas lojas, eram espertos e sabiam negociar melhor. O que ouvíamos era que Hitler tinha medo de que eles tomassem conta de tudo. Mas isso era motivo para matá-los? Por todo lado tinha placas escrito ‘Proibido para judeus’ e era horrível ver aquela estrela no peito deles. Lembro-me da seguinte frase dele: ‘Ein folk, ein reich, ein führer’ (em português: ‘Um povo, uma terra, um líder’). Eu tinha pavor”.

A caminhada da fome

Uma das cidades mais devastadas na Holanda pelos bombardeios foi Roterdã, que fica a cerca de250 quilômetrosde Schoonebeek, onde Anna morava. O leste do país é uma região de fazendeiros, onde havia mais comida naqueles tempos.

Anna conta que ficou impressionada ao ver milhares de sobreviventes caminhando na direção leste em busca de alimentos. “Para não morrerem de fome, eles comiam bolas de tulipas”, lembra.

Para garantir o retorno dessas pessoas para Roterdã, muitas famílias deram jóias para que elas trocassem por comida. “Soubemos depois que muitos foram roubados pelos nazistas no caminho de volta”.

Os “onderduikers”

“Onderduikers” em Den Haag (arquivo: Zijper Museum – foto NIOD)

“Onderduikers” eram as pessoas que se escondiam nos porões das casas. Além de judeus, algumas famílias também escondiam jovens holandeses. “Quem tinha entre 16 e 20 anos era obrigado a servir o exército alemão e eles não queriam”.

Porém para aqueles que os ajudavam, o risco também era grande, visto que NSBs estavam espalhados por todos os cantos. “Os holandeses que escondiam judeus também eram levados pelos alemães. Isso aconteceu com o então prefeito de Gramsbergen depois que descobriram que ele estava dando mais tíquetes para trocar por comida para as famílias que tinham “onderduikers”. Ele nunca mais foi visto”.

Com o fim da guerra, os sobreviventes voltaram à região para agradecer aqueles que os ajudaram. “Até hoje, os familiares daquelas pessoas vêm aqui nos agradecer”.

“Guerra nunca mais”

Moradora de Gramsbergen presta homenagem às vítimas da guerra no cemitério da cidade

“Não me esqueço o dia que vi um tanque de guerra se aproximando. Eram os aliados trazendo chocolates, cigarros e a notícia da liberdade. Foi um dia muito feliz para todos nós”, emociona-se Anna.

Mesmo tantos anos depois, Anna teme por novos ataques, mas desta vez contra o Islã. “Atrair as pessoas contra as outras. Era isso que o Hitler fazia e o que estão fazendo hoje. Isso é perigoso! Guerra nunca mais”.

No vídeo abaixo, veiculado no programa Mosaico na TV, você acompanha as comemorações que aconteceram em Amsterdam pelo Dia da Lembrança e Dia da Libertação, nos dias 4 e 5 de maio de 2012 (clique no símbolo do Youtube para assistir em melhor qualidade).

Vídeo: Barbara Chanin /Texto e fotos: Flávia Waltrick

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O dia em que a Holanda se veste de laranja

11 maio

Festa nos canais de Amsterdã

Apesar dos rumores de que este ano o Queen’s Day seria cancelado, o maior evento anual da Holanda reuniu em 2012 mais de 700 mil pessoas na capital Amsterdã. O motivo do suposto cancelamento é o delicado estado de saúde do príncipe Johan Friso, filho do meio da rainha Beatrix, que permanece em coma desde fevereiro deste ano.

Mas para os holandeses, nem mesmo o drama da familia real ou a crise no Parlamento que levou à renúncia do primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, foram motivos para não comemorar o tradicional Dia da Rainha, no último dia 30.

Vestidos de laranja, como forma de expressar o respeito à família real holandesa, a Casa de Orange-Nassau, milhares de pessoas foram às ruas para curtir o dia ao ar livre. Em Amsterdã, as festividades começaram na noite anterior em bares e pubs da cidade. No dia 30, a capital ficou movimentada até mesmo nos famosos canais, local preferido dos holandeses para desfrutar a festa a bordo de pequenos barcos que percorrem toda a cidade. Na água ou nas ruas, moradores e visitantes tipicamente trajados ajudaram a formar um mar laranja em torno da capital.

No Dia da Rainha vale vender de tudo nas ruas

O dia também é ideal para os amantes de quinquilharias e para quem gosta de pechinchar. Diversos mercados de pulgas são facilmente encontrados nas ruas da cidade, onde é possível comprar vinis, livros, roupas, brinquedos e mais uma infinidade de objetos de segunda mão.

Considerada uma das cidades mais atrativas (e tolerantes) na Europa para a comunidade gay, o Queen’s Day em Amsterdã é também um dia especial para gays, lésbicas, bissexuais e travestis, transexuais e transgêneros, marcando a primeira das celebrações anuais da comunidade como a parada do Orgulho Gay e o Amsterdã Mardi Gras.

Konninginnedag

O “Konninginnedag”, como é chamado em holandês, é celebrado na Holanda desde 1885, em homenagem ao nascimento da rainha Wilhelmina, em 31 de agosto. Porém, em 1949, quando sua filha Juliana subiu ao trono, a data passou a ser comemorada todo 30 de abril, em honra ao aniversário da nova monarca. A sucessora ao trono e atual rainha Beatrix optou por manter a festa em abril em homenagem a sua mãe.

Quer foto mais turística? Rijksmuseum, a imagem da Rainha Beatrix e o letreiro mais famoso de Amsterdã

Veja no vídeo abaixo como foram as festas na capital, Amsterdã! (Clique no link do youtube para assistir em melhor qualidade).

 

Vídeo: Barbara Chanin / Texto e fotos: Flávia Waltrick